”[…] E mesmo que não queira, continuarei aqui, como sempre estive. Disposta a perdoar teus erros, a concertar tudo, a tentar mais uma vez, jurando a mim ser tua ultima chance. Sei que um dia me esquecerá, se é que alguma vez chegou a lembrar. Seguirei vivendo, curando-me enquanto posso. Não me dou o luxo da espera, não tenho o privilégio de manter o mundo parado enquanto me reergo. O tempo passa e um dia aprendemos a tomar o caminho certo. Mesmo sabendo que não sou o suficiente para prender-te, para amarrar-te a mim, sei que possuo habilidade das quais sabe que nunca achará em nenhuma das bocas que beija nas tuas baladas noturnas. Tenho o dom de transformar historias tristes em poesias, uma poeta embriagada com teu aroma floral. Esqueça o a garrafa de wisky, deixe tua droga em casa, pois entorpecerei-te. Devore-me, possua-me, faleça no triunfo de um ardente beijo meu. E mesmo que você não ouça, tem alguém gritando-te, implorando-te. E enquanto você finge não ouvir, morro aos pouquinhos, mais lentamente do que o desejado. Perdi-me nos teus singelos pecados, devotei-me a um novo Deus, larguei tudo o que antes conhecia, para crer em uma utopia imperfeita. Apaixonei-me por uma mentira, e mesmo a conhecendo, entreguei-me cegamente ao que achei que fosse amor. Era incerto, todo errado, mas era amor, a minha maneira, era amor. Vivo afogada nesse sentir, inundada pelo precisar, conjugando mesmo sem querer o verbo amar. Combinando rimas, adocicando palavras, misturando fragrâncias, sigo assim querido. Aprendi a viver, com ou sem você, mas não nego, continuo chamando-te na calada da noite. Grito teu nome quando o Sol se esconde no horizonte, de todas as formas e jeitos, até que minha voz se perca e eu emudeça para sempre. Sou complicada, eu sei. Não segui reto na estrada da vida, preferi as entrelinhas, os caminhos difíceis, a contra mão. Quis voltar diversas vezes, porém, esqueci-me de marcar o caminho com pedras. Se perguntam-me de meu sorriso ? Ah, o tempo o desgastou. Tornou-o amarelo, gasto, sem vida, quase falso. A vida calejou-me em excesso, mas se isso fora necessário para tornar-me o que eu sou, não me arrependo. Se ainda amo-te ? Não negarei, fostes meu primeiro amor. E como muitos dizem, o primário nunca esquecemos. Mas deixei-te. E essa fora a minha melhor decisão. Tínhamos um amor de aluguel, e esquecestes de pagar a conta. Nos protegíamos sob uma penumbra, mas a chegada da alvorada dissipou-a. E você não soube como se safar daquilo, não soube cuidar de mim com a ausência das sombras, estava claro demais para nós dois. Terminamos, enfim. Fizemos milhares de planos juntos, eu sei. Mas preferistes deixar tudo para o amanhã, sem saber que o amanhã talvez nunca chegasse. Disse-lhe, querido, que não poderia dar-se ao luxo de esperar. Esse pode ser teu ultimo dia, e mal soubestes aproveitar. Não lhe julgarei, certamente sabes o que faz. Peço-lhe que reflita sobre cada palavra contida nesta carta, e não venha-me com a desculpa que não entendeu minha caligrafia, quando juntos, adorava meu jeito com as palavras. E agora, que provasse novos sabores, sentisse novos aromas e apreciasse novas caligrafias, diga-me, alguma delas se comparou a mim ? E mesmo que tente negar, sei que antes de adormecer, e entregar-se ao sono, é em mim que pensas. Minta o quanto quiser, diga todas as utopias que puder inventar para os teus amigos, mas eu sei. Sei que chorastes baixinho, contra o travesseiro naquela noite. Assim como eu. Conheço-te, já fora meu menino, lembra ? Mas o tempo passou querido, até mesmo para nós. Passou como guinadas ofuscantes e desconhecidas. Preferi ficar á mercê da luz, enquanto você perdia-se na escuridão. Somos e sempre seremos antônimos, paradoxos. Mas, de alguma forma que desconheço, algum dia nos completamos. Portanto, faça a sua parte de continuar fingindo que não me ouve, enquanto continuo arrumando a desculpa de estar rouca para não lhe gritar. Mudamos. Enfraquecemos. E por fim, terminamos.” (cds)